The Fantasy Makers

Quando em 2013, um século após o nascimento de Piero Fornasetti (1913-1988), o museu de design da Trienal de Milão dedicou uma extensa e inédita exposição dedicada ao artista e designer italiano, conseguiu observar-se debaixo de um único tecto a amplitude do seu trabalho. Curada pelo seu filho Barnaba, guardião do espólio familiar e actual responsável pela colecção da Fornasetti, a exposição prestava um merecido tributo a Piero e demonstrava a sua inesgotável capacidade criativa, que culminou com a produção de mais de 11.000 produtos ao longo da sua carreira.

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“O meu pai era uma pessoa única, um génio”, referiu Barnaba Fornasetti num documentário francês, acrescentado: “o meu pai era duro, autoritário, dificil, mas ao mesmo tempo era irónico, tinha um humor muito britânico, e eu quero perpetuar essa tradição. Penso que o meu pai inventou uma nova técnica artistica, começou a recolher imagens de todo o mundo, de várias épocas, era um verdadeiro coleccionador de imagens, retirava-as de revistas e de livros, alguns de grande valor, mas tirava na mesma”.

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Expulso em 1932 da Academia de Brera por insubordinação, onde estudava desenho, Piero Fornasetti foi desde sempre um rebelde, uma pessoa com pensamento próprio, decidido a criar o seu próprio mundo, um universo mágico, repleto de imagem, cor e fantasia. “Não acredito em períodos ou datas. Simplesmente não acredito. Recuso-me a determinar o valor de um objecto pela sua data. Não me limito e nada é demasiado esotérico para ser utilizado como inspiração. Quero libertar a minha inspiração das limitações do comum. Mas também sou um racionalista… Temos o hábito de comprar ‘assinaturas’, e deixámos de investir nas coisas bonitas que gostamos. Um artista que pretende ter sucesso deixa de ser um artista, ele é apenas uma pessoa que quer ter sucesso. Se o artista se conformar com a moda, então vai chegar tarde, porque nesse momento já estão todos conformados”, referiu Piero Fornasetti na época.

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Este constante desafio ao 'status quo' aliado a uma curiosidade insaciável, transformaram Piero Fornasetti num autêntico homem renascentista do século XX, alguém que não tinha medo de arriscar e contrariar as tendências estéticas do momento. Destacando-se como pintor, escultor, designer de interiores e gravador de livros, o milanês acabou por encontrar no emblemático arquitecto Gio Ponti o patrono perfeito para apresentar o seu estilo único a um público internacional. Tendo chamado a atenção de Ponti no decorrer dos anos trinta com os seus lenços em seda estampada, Fornasetti acabaria por conhecer o então editor da revista Domus em 1940, que o viria a convidar para participar em muitos dos seus projectos, incluindo a criação de frescos para o Palazzo Bo em Pádova ou os interiores da Casa Lucano (apelidada de Casa di Fantasia) em Milão, do Casino de São Remo ou do luxuoso transatlântico Andrea Doria, que acabaria por se afundar em 1956 perto de costa de Nantucket, nos Estados Unidos.

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No entanto, a parceria entre Ponti e Fornasetti acabaria por ser mais difundida na produção de objectos e mobiliário. Tendo como objectivo conjugar produção artesanal, industria e arte - algo “utópico" segundo Barnaba Fornasetti, visto na sua opinião a industria se focar apenas em quantidade e não na qualidade - as peças produzidas em conjunto foram uma lufada de ar fresco na época, juntando as formas simples e intemporais de Ponti com os padrões neo-clássicos de Fornasetti. Inspirado pela pintura surrealista metafísica de artistas como Alberto Savinio, Giorgio de Chirico ou Alberto Magnelli e com claras referências a Jean Cocteau e Pablo Picasso, as criações do milanês misturavam classicismo com ironia, conjugando uma série de universos e ideias, colocando qualquer período ou estilo ao mesmo nível.

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A cómoda ‘Leopardo’ e o bar ‘Trumeau’, duas das peças mais conhecidas da Fornasetti, são um excelente exemplo da perfeita simbiose entre o arquitecto e o artista. Enquanto na ‘Leopardo’, a forma curva se tornou na base perfeita para uma impressão natural pintada à mão, no ‘Trumeau’, uma conjugação de bar, aparador e escrivaninha, um intricado padrão arquitectónico cobre integralmente a peça de linhas direitas. Em ambas, a noção especial de decoração desenvolvida por Fornasetti e Ponti é especialmente marcante por terem encontrado uma forma de ornamentar peças, sem influir na forma, como se os desenhos fossem projectados nas superfícies.

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Apesar de no final dos anos 50 Fornasetti estar no pico da popularidade, tendo inclusive recebido em 1959 um prémio Neiman-Marcus pelo seu “distinto serviço no campo da moda”, o artista e designer viria a sofrer com a chegada de uma nova sensibilidade estética na década seguinte. Assumindo-se como o “homem certo na época errada”, nunca abandonou o seu mundo incrível e fascinante, recusando-se a ceder às premissas do modernismo, que ‘proibia’ os ornamentos, as formas não funcionais, as referências históricas e naturalistas.

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Tendo ainda vivido para ver o ressurgimento do interesse no seu trabalho, com a abertura da loja londrina 'Themes and Variations’ em 1980, Fornasetti encontrou no seu filho Barnaba (1950) o sucessor perfeito para continuar a sua tradição estética. Criativo, dedicado e tal como o seu pai, hermético às influências estéticas exteriores, Barnaba Fornasetti é uma personagem singular, incorporando o verdadeiro espírito de excentricidade com o qual o nome Fornasetti ficou associado. Na casa da família em Milão, um autêntico gabinete de curiosidades dos tempos modernos, repleto de livros, litografias e objectos de todo o universo visual da marca, o herdeiro inspira-se para continuar a desenvolver o legado Fornasetti.

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“O nosso trabalho é reeditar fielmente o trabalho feito pelo meu pai, mantendo a qualidade e técnicas de produção, bem como desenvolver as reinvenções, que utilizam os desenhos originais, dando-lhes uma nova vida através de interpretações modernas”, refere Barnaba.

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Para além de continuar a editar colecções de sucesso como a ‘Tema & Variazioni’, uma fascinante série de mais 350 variações, inspiradas no rosto da cantora de ópera Lina Cavalieri (1874-1944), aplicadas nos mais variados produtos, Barnaba manteve de forma exemplar a produção artesanal no atelier da marca em Milão. Tal como no passado, todos os decalques dos desenhos são aplicados e pintados manualmente, o mobiliário e edições limitadas construídas, pintadas e polidas pelas mãos de experientes artesãos, tudo sob o olhar atento do herdeiro. Tendo levado o nome da marca ainda mais longe, a última colaboração com a Valentino é prova disso mesmo, Barnaba continua a preservar e recriar o universo Fornasetti, trazendo prazer, humor, provocação e sentido aos objectos quotidianos, prosseguindo a tradição do “mágico e da sua magia preciosa e precisa”, tal como Pablo Neruda descreveu o seu amigo Piero Fornasetti.

Originalmente publicado na revista Essential Macau.