O Retorno do Feito à Mão

Pode parecer uma contradição numa sociedade viciada na novidade, nos produtos baratos e no crescimento económico contínuo, mas existe um grupo cada vez maior de pessoas que valoriza os produtos de qualidade, manufacturados lentamente, o conhecimento dos artesãos e a recuperação de técnicas utilizadas desde há muito, apoiando o que se pode considerar como um renascimento do fazer à mão. Pedro da Costa Felgueiras é um excelente exemplo deste movimento, sendo actualmente uma referência em Londres em técnicas de pintura histórica e lacagem oriental e europeia.

“Desde que fomos para a China fazer produtos de fraca qualidade que se abandonou a produção na Europa,” conclui com tristeza o português, acrescentando que “na capital britânica existe um verdadeiro voltar ao ‘craft’, muitas pessoas pensam que é importante mantê-lo vivo, para não se perder um legado de séculos”.

maosnamassa4

Depois de trabalhar na área da moda em Portugal, o artista viajou pelo Japão e por várias cidades europeias até se fixar em Londres, onde afirma que as pessoas são valorizadas pelo seu trabalho, “se somos bons numa coisa é o que interessa.” Foi nesta cidade que aprofundou o fascínio por peças antigas e pelas técnicas utilizadas para as criar, o que o levou a tirar um curso de conservação e restauro na prestigiada Sir John Cass Faculty of Art, Architecture and Design. Tendo criado o seu estúdio em 1995, Pedro da Costa Felgueiras é conhecido pelo seu trabalho exímio, respeito pela história, conhecimento multi-disciplinar e investigação que realiza para cada trabalho.

maosnamassa3

Apesar do seu fascínio pelo passado, o português acredita na relevância destas técnicas antigas num ambiente contemporâneo, prova disso têm sido os inúmeros projectos desenvolvidos para museus e clientes privados. Assumindo-se como verdadeiras obras de arte, tanto pela técnica e criatividade, como pelos materiais utilizados, as suas pinturas históricas podem ser observadas, por exemplo, na Strawberry Hill House, no sudoeste de Londres, uma casa-museu que pertenceu no século XVIII ao aristocrata Horace Walpole. “Fui contactado para re-instaurar os esquemas decorativos que tinham sido completamente perdidos e dos quais só restavam pequenos fragmentos. Esses fragmentos eram o suficiente para serem analisados e cientificamente determinar os pigmentos e técnicas históricas usadas entre 1750 e 1790. Os parâmetros exigidos era que usasse somente pigmentos, materiais e técnicas existentes durante o período de vida do Horace Walpole para refazer essas salas,” conclui Pedro da Costa Felgueiras.

maosnamassa12

O resultado deste trabalho de cinco anos é extraordinário não só a nível histórico, bem como pelos pigmentos raros utilizados no processo. O ‘Blue Verditer’ - produzido através de um longo processo no inverno por um septuagenário, talvez a última pessoa do mundo a fazê-lo, quando as temperaturas se mantêm perto do zero - foi aplicado no Blue Bedchamber, enquanto o ‘Ecclesiastical Purple’ foi o pigmento utilizado na ‘Holbein Chamber’, espaço dedicado por Walpole à exposição de desenhos do pintor Holbein, bem como várias peças de mobiliário indo-portuguesas em pau-santo negro.

maosnamassa2

Outro projecto de que Pedro da Costa Felgueiras sente especial orgulho, foi a recuperação de uma casa que os artistas Gilbert & George possuem em Spitafields, Londres. Tendo sido totalmente refeita pelo português, a casa do século XVIII “não foi uma reposição completamente histórica e exactamente correcta, mas sim mais um trabalho que foi feito para satisfazer um gosto exigente e particular de uns artistas que prezam a qualidade do seu próprio trabalho, mas que igualmente apreciam a qualidade de um acabamento histórico, feito com materiais autênticos com uma textura superior a qualquer imitação moderna,” constata.
Seja na recuperação de mobiliário antigo, de um edifício histórico ou na produção de uma nova peça através de técnicas do século XVIII, Pedro da Costa Felgueiras considera que fazer algo com as mãos o satisfaz, é algo crucial, nada comparável com qualquer coisa feita numa máquina.

maosnamassa5

Igualmente fascinado pelo trabalho manual, o ceramista Paulo Alves transformou desde cedo este instrumento na sua principal ferramenta de criação. “Desde miúdo que gosto de desmontar e voltar a montar coisas. Primeiro os brinquedos da época, bicicletas, depois as motos… Sempre tive curiosidade de ver as pessoas que trabalhavam com as mãos, como arranjavam as mais diversas coisas, o que faziam, como era o carácter delas, e as mãos que tinham,” relata Paulo Alves.

maosnamassa6

Depois de ter tirado um curso de cerâmica nos anos oitenta e de ter viajado pelo mundo a aprofundar este conhecimento, o ceramista, actualmente a viver em Cádiz, Espanha, refere “que está a reaparecer uma nova visão sobre algumas actividades tradicionais. Parece-me que muita gente se cansou de tanta massificação. Observo que vai surgindo uma mudança, uma troca do ‘muito’ por ‘pouco’. As crises também provocam bons resultados.”

maosnamassa7

Tendo como referência o oriente e o fascinante mundo do chá, Paulo Alves tem desenvolvido nos últimos anos um íntimo diálogo entre forma, textura e função, criando uma delicada colecção de taças, especialmente concebidas para beber chá. Integralmente feitas à mão no seu estúdio, as peças demonstram uma grande sensibilidade para os pormenores, uma celebração dos detalhes únicos que a mão humana pode desenvolver, inspiradas nas “pequenas subtilizas que andam por aí, discretas e anónimas, nos espaços vazios ou quase. No final, as peças que faço são ‘acolhedores’. Podem chamar-lhes de taças, ‘bowls’ ou o que quiserem, mas são sempre ‘acolhedores’ de algo ou de nada,” revela Paulo Alves de forma filosófica.
Podendo demorar até dois meses a concretizar o processo cerâmico, desde a fase inicial de concepção até às últimas cozeduras, Paulo Alves “tem uma relação de afecto com as peças. Nunca abandono uma até estar definitivamente terminada. Depois, há que deixá-la seguir o seu caminho.”

maosnamassa8

Foi a paixão pela música e instrumentos que motivou a mudança de vida de Fernando Lima aos 44 anos. Tendo uma vida estável obtida através de um negócio familiar de venda de máquinas para a indústria do calçado, abandonou tudo para abraçar um desejo antigo. “A vida não pode só ser comer, dormir e fazer dinheiro, tem de haver algo mais. Queria construir o meu sonho”, afirma. Aos 16 anos, quando estudava música, Fernando criou o primeiro instrumento por falta de possibilidades da família para adquirir um novo e quase três décadas depois decidiu seguir a sua paixão, mudando-se de malas e bagagens para Itália, com o objectivo de estudar ‘Lutherie’, a arte de construir instrumentos de corda. Tendo entrado directamente para o terceiro ano do curso, o qual acabou com nota máxima, na escola Antonio Stradivarius em Cremona, a ‘capital’ mundial da produção de violinos, o artista rapidamente de tornou uma referência neste meio. “O que quisermos verdadeiramente fazer, nós conseguimos, mas temos mesmo de querer,” afirma.

maosnamassa10

Actualmente com 53 anos, Fernando é o único português que alguma vez teve um laboratório em Cremona e actualmente conta com apreciadores do seu trabalho pelos quatro cantos do mundo, incluindo músicos das grandes orquestras internacionais, prestigiados violinistas como Lidia Baich, Wonji Kim, Massimo Quarta e Igor Azim, bem como diversos coleccionadores que adquirem os seus violinos como investimento. Considerando que a sua actividade é muito mais do que apenas fazer violinos, é uma arte, Fernando está sempre numa constante procura para se superar.

maosnamassa9

“Posso mostrar 100 violinos, mas os meus são facilmente identificáveis, quando se faz arte, nenhuma pessoa consegue concretizar aquilo que eu faço, é único. Todos os meus instrumentos são construídos manualmente com amor e carinho, faço o meu verniz e escolho a minha própria madeira, a qual deve ser bela e possuir as melhores qualidades acústicas,” revela o ‘luthier’ português.

maosnamassa11

Tendo um tempo de espera de dois a três anos, os seus violinos atingem o valor de 30.000 euros, resultado da sua elevada qualidade e reconhecimento do português no meio musical. Inspirado pela rica história de Cremona e pelos grandes mestres, Fernando Lima pretende ficar na história e “construir o melhor violino do mundo.” O seu laboratório, localizado no centro da cidade, na Piazza Roma 8, é onde tudo acontece, apenas a alguns metros do espaço onde Antonio Stradivarius tinha o seu atelier. “Costumo dizer que no passado os melhores violinos eram criados do outro lado da rua, agora são aqui!” Emocionado-se quando ouve os seus instrumentos serem tocados perante grandes audiências, Fernando Lima sente que nasceu com o propósito de fazer o seu semelhante feliz: “fazer algo com as mãos é o retornar à essência humana, ao seu mais profundo ser. Os artistas não se podem deixar vencer pelo consumismo, pelas máquinas, temos de criar, de fazer algo diferente, quando perdemos isto, deixamos de ter a chama interna acesa.”

Originalmente publicado na revista Doze.