Estilo sobre Rodas

Na década de setenta, nas costas de uma folha de desenhos arquitectónicos de Leonardo da Vinci, um historiador italiano descobriu o que seria o primeiro desenho de uma bicicleta. Supostamente desenhada em 1493 pelo famoso artista e inventor, esta primeira versão apresentava uma aparência tosca do que seria a bicicleta alguns séculos depois. Apesar da veracidade deste desenho ser alvo de discussão entre historiadores, a polémica mostra o empenho patriótico dos italianos em colher os louros de uma das mais emblemáticas invenções da história.
Apesar da Draisienne, uma das primeiras bicicletas (sem pedais) a ser produzida, ter sido criada em 1817 pelo barão Karl von Drais na Alemanha e das subsequentes evoluções terem sido desenvolvidas além Alpes, os italianos tornaram-se um símbolo incontornável das bicicletas e do ciclismo internacional a partir do final do século XIX. Provas clássicas como a Milão-São Remo, uma das mais antigas corridas ainda disputadas; o Giro D’Italia, que surgiu em 1909; ciclistas emblemáticos como Fausto Coppi e Gino Bartali; ou fabricantes como a Colnago ou a Bianchi fizeram de Itália um dos países mais associados à bicicleta.

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Em Itália, tal como no resto da Europa, a bicicleta, que serviu de meio de transporte das massas até meados do século XX, foi substituída pelo automóvel no pós-guerra. Na última década, por razões ligadas à racionalidade urbana e a um retorno ao estilo do passado, o veículo movido a pedal voltou às metrópoles a nível internacional, mas com especial elegância nas cidades italianas. Nas ruas de Milão podemos facilmente vislumbrar homens com os seus casacos Barena, calças Incotex e sapatos Fratelli Rossetti a pedalar nas suas bicicletas clássicas, a verdadeira ‘Sprezzatura’ sobre rodas. Caso não seja um modelo vintage, é muito provável que uma dessas bicicletas seja uma Abici, uma das marcas italianas a iniciar este movimento revivalista.

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Fundada em 2005 por três amigos da Lombardia e da província de Emilia – Giuseppe Marcheselli, Stefano Seletti e Cristiano Gozzi – a Abici assume-se como a interpretação actual das bicicletas clássicas do nosso imaginário. “Foi uma paixão que nasceu numa taberna, entre uma garrafa de ‘Lambrusco’ e um prato de ‘Tortelli’”, refere Seletti.

“Tudo começou com catálogos dos anos cinquenta, queríamos criar uma bicicleta nostálgica, mas high-tech simultaneamente, uma que fosse de encontro ao nosso gosto. A perfeita conjugação entre beleza e elementos técnicos, uma bicicleta simples, sem demasiados logotipos ou opcionais, como a maioria das marcas no mercado. A Abici introduziu as bicicletas de lifestyle e inspirou todos os outros fabricantes”, remata Cristiano Gozzi.

Apesar da Abici se basear em modelos clássicos, as bicicletas da marca italiana destacam-se pela contemporaneidade e pela atenção ao detalhe, eliminando tudo o que seja desnecessário ou supérfluo na sua construção. “Como a famosa Coco Chanel disse: ‘é sempre possível retirar algo de um vestido bonito’”, recorda Gozzi. Inspirada por antigos catálogos de bicicletas de artesãos locais e por ícones como o Fiat 500, a Lambretta ou a Vespa, a Abici corporiza o estilo e forma de saber fazer dos italianos, apresentando bicicletas com quadros em aço na “sua forma mais pura, sem cabos ou adereços, na qual a sensualidade é evidenciada, o que as torna reconhecíveis”, refere Seletti com entusiasmo.

Amante grigio part. oro mod. Uomo - ABICI

De Londres a Nova Iorque, passando por Paris e Copenhaga, a Abici tornou-se não só no veículo ideal para chegar de A a B, mas igualmente num objecto de desejo, uma clara referência à época dourada do ciclismo urbano, com os olhos postos no futuro, para pedalar no presente. Foi esta mesma atitude perante o design que tem levado diversas marcas reconhecidas a adoptar a Abici como a bicicleta de eleição para campanhas ou edições especiais. Depois da Granturismo Donna em verde para a Kate Spade ter sido lançada em 2011, a Abici associou-se à Moynat no ano seguinte para desenvolver outra bicicleta de edição limitada, na qual o elegante quadro preto e pormenores como o selim e os manípulos, combinavam de forma exemplar com a mala de piquenique estampada com o famoso monograma da casa francesa.

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Apesar do sucesso internacional da Abici, Itália nunca deixou de ser o ponto de referência da marca. “Todas as bicicletas são produzidas aqui, incluindo o quadro. A etiqueta ‘Made in Italy’ é muito importante para nós, porque é a única forma de construirmos bicicletas com um elevado padrão de qualidade. Existe uma pessoa que monta a bicicleta do princípio ao fim, não temos nenhuma linha de produção, como tal podemos preocupar-nos com todos os detalhes e passar o tempo certo em cada uma”, destaca Seletti, que é um apreciador incondicional do modelo Sveltina Uomo, uma elegante bicicleta urbana. “Gosto tanto do design deste modelo com as suas 8 mudanças, guiador e avanço desportivos, permitindo que possa ser utilizada em passeios mais longos, como o que fiz com o meu amigo artista Maurizio Cattelan de Milão para Cremona, uma bonita experiência!”. Já Cristiano Gozzi destaca a Granturismo Uomo como a sua bicicleta de eleição. “Foi a primeira que criámos. Todo o trabalho conceptual foi realizado neste modelo e o resto da colecção foi inspirada pela primeira bicicleta. Ao criarmos a Granturismo, desenvolvemos um conceito no qual desejávamos eliminar tudo que fosse possível das bicicletas comuns que estavam no mercado nessa época. A ideia era ser o mais essencial possível.”

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Concordando que a bicicleta é um acessório de estilo para os homens, Stefano Seletti afirma que acima de tudo deve ser um meio de transporte. “Os nossos heróis são as pessoas que as utilizam diariamente como transporte, ajudando a reduzir a poluição e o trânsito”. Cristiano Gozzi complementa: “Penso ser muito importante iniciar a educar as nossas crianças e ensiná-las que se é ‘cool’ quando se anda de bicicleta e respeita o ambiente e não quando se conduz um automóvel dispendioso. Alguns média estão a promover as bicicletas mais do que anteriormente, mas infelizmente a maioria está a fazê-lo porque agora está na moda. Concordo que se andas de bicicleta, deverá ser numa bonita, e é isso que fazemos. Produzimos bicicletas com estilo, mas é importante entender todo o significado da bicicleta. Estamos agora a experienciar uma mudança muito importante: os sistemas nos quais vivemos durante anos estão a colapsar, necessitamos de abrandar, pensar no que estamos a fazer, precisamos de respeitar o ambiente. O mundo não nos pertence, temos que cuidar dele para as próximas gerações”. E a Abici não o poderia estar a fazer de melhor forma.

Mais sobre a Abici aqui.
Originalmente publicado na Revista 12.