Denim para Sempre

Nunca saberemos se foram os franceses que criaram o denim por volta do século XVII - julga-se que a palavra é originária do tecido ‘serge de Nîmes’ - ou os genoveses através do ‘jean’, um tecido popular no século XVI, no entanto foi um alemão e um letão que desenvolveram a peça de vestuário mais popular dos últimos dois séculos, os jeans. Levi Strauss, o bávaro que se estabeleceu em São Francisco em meados do século XIX como importador de tecido e vestuário, conjuntamente com o seu cliente e futuro sócio Jacob Davis, emigrante vindo de Riga, inventaram e registaram as primeiras calças de ganga com rebites metálicos, que aumentavam a sua robustez e, sem o saberem, também o estilo. A partir daqui o resto é história e outras marcas como a Lee’s seguiram as pisadas da Levi’s para tornar as calças de ganga na derradeira peça de vestuário para todas as classes sociais, faixas etárias, estilos ou nacionalidades até aos dias de hoje.

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Recentemente, após a produção em massa de jeans ter invadido o mercado, tem-se observado o renascimento de um movimento de marcas que desejam recuperar técnicas de produção antigas, um retornar à beleza do denim dos tempos dos cowboys e da febre do ouro nos Estados Unidos, mas com um ‘twist' moderno.

Uma das grandes referências neste campo e um importante ponto de encontro de muitas destas marcas tem sido a Tenue de Nîmes, fundada em 2008 em Amsterdão, um espaço criado sob “os princípios básicos da qualidade, função e simplicidade com as raízes na história dos jeans, uma loja para partilhar as boas coisas da vida.”

Para Menno van Meurs, co-fundador da Tenue de Nîmes e um dos grandes especialistas internacionais nesta área, a ganga tem mantido a sua relevância porque “a sua beleza é também a sua força: a funcionalidade. É uma peça de roupa que foi construída para durar e tendo a qualidade como a sua espinha dorsal.”

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Tendo iniciado o seu percurso como roupa de trabalho no século XIX, os jeans do século XXI voltaram às origens e fazem agora parte da indumentária que milhões de pessoas das mais variadas áreas utilizam no seu quotidiano laboral, seja um designer industrial ou um trabalhador de escritório numa ‘casual friday’. Para além das calças de ganga terem deixado de ser apenas uma peça de vestuário rebelde, a verdadeira revolução no mundo do denim está relacionada com as melhores marcas adoptaram o selvedge como tecido de eleição. Produzido de forma tradicional, o selvedge é desenvolvido em teares antigos e ao contrário da ganga mais comum, os rolos de tecido são mais estreitos e fabricados com um fio único que corre na lançadeira de um lado para o outro no tear até formar um denim de textura única e original, sem extremidades que se possam desfiar.

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Para além de selvedge, o denim dos melhores jeans actualmente também são apresentados ao cliente final sem terem sido lavados ou manipulados anteriormente, deixando o tecido no seu estado original, ou seja raw. Toda esta atenção ao detalhe vai de encontro ao desejo de uma faixa de consumidores cada vez mais interessada na qualidade e na origem das suas calças de ganga, deixando de lado modas passageiras e o estilo sem substância. Afirmando que é difícil escolher as marcas que estão a desenvolver o melhor trabalho nesta área, Menno van Meurs refere que os “jeans nunca devem ser guiados por tendências, mas sim favorecer o corpo,” acrescentando que “existem duas marcas que estão a marcar a diferença de momento. A primeira é a Double RL da Ralph Lauren. Esta marca exclusiva tem as suas raízes no ‘cool’ do século XX, produzindo todos os jeans nas melhores fábricas e lavandarias dos Estados Unidos. No entanto, o que gosto mais é o corte clássico americano. Segundo, também estamos muito orgulhosos por termos lançado os nossos próprios jeans. A marca Tenue de Nîmes é baseada na qualidade, transparência e sustentabilidade. O objectivo é criar uma colecção de peças intemporais que venham a tornar-se num clássico de qualquer guarda-roupa. Os nossos jeans são produzidos em Itália com tecidos americanos e japoneses.”

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E é exactamente destes dois países que são originárias algumas das marcas premium mais vibrantes e apelativas do momento. Fundada em 2006 na cidade de Kojima, província de Okayama, a Momotaro é um excelente exemplo da tradição japonesa na produção de denim, que se iniciou após a Segunda Grande Guerra e foi-se aperfeiçoando nas décadas seguintes. Com o lema ‘produzido à mão sem comprometer (a qualidade)’, a marca sob direcção criativa de Katsu Manabe destaca-se pelo apertado controlo de todo o processo de fabrico, desde a escolha do algodão do Zimbabwe, as técnicas de tecelagem tradicionais em Rampuya ou o tingimento com indigo natural puro.

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Do outro lado do Pacífico, a Tellason é outra marca que também não deixa nada ao acaso. Fundada por dois aficcionados do denim, Tony Patella e Pete Searson, a Tellason está comprometida em fazer os melhores jeans Made in USA com componentes locais, bem no centro do berço dos jeans, São Francisco. Produzindo numa pequena fábrica dentro da cidade californiana, a Tellason utiliza o raw selvedge denim de qualidade vindo da emblemática Cone Mills, que ainda o produz em máquinas dos anos quarenta, bem como etiquetas em pele de curtimenta vegetal, criadas pela Tanner Goods, em Portland.

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Já na Europa, a Hiut tem vindo a marcar a diferença pelo empenho em reanimar a indústria em Cardigan, uma pequena cidade do País de Gales com tradição na produção de jeans, mas igualmente pelas peças de qualidade que tem apresentado desde a sua criação. Resultado da iniciativa de David Hieatt, a marca galesa conjuga o conhecimento de décadas dos artesãos locais com os melhores tecidos, incluindo raw selvedge da Kuroki, uma conhecida fiação japonesa.

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Apesar da distância que separa estas marcas e muitas outras que têm vindo a elevar o denim à forma de arte, o futuro dos jeans parece mais brilhante que nunca. “Acredito que uma peça tão forte como os jeans vai sobreviver a qualquer época, o denim tem conseguido reinventar-se vezes sem conta. Como tal acredito que o espírito livre dos jeans será eterno e a única coisa que o futuro nos trará será mais conhecimento ao nível do fabrico e desenvolvimento sustentável das peças,” refere Menno van Meurs, concluindo que o “denim, conjuntamente com a t-shirt branca, é a mais simples e vital parte do nosso guarda-roupa. Os jeans possuem este derradeiro estilo descontraído que complementam qualquer estilo.”

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Originalmente publicado na revista Doze