Crónica #07 - Charme Brasileiro

Tal como a música brasileira, influenciada pela diversidade cultural deste vasto país sul-americano, o design vindo do Brasil sempre demonstrou um carácter e apelo únicos. Apesar de terem acompanhado a corrente modernista internacional de meados do século passado, os grandes mestres do design brasileiro demarcaram-se pela sua visão original, conjugando design orgânico, materiais locais e a mestria dos artesãos brasileiros.

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Para além de lendário Oscar Niemeyer e do vencedor do prémio Priktzer Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi, Sérgio Rodrigues, Gregori Warchavchic, José Zanine Caldas ou Jorge Zalszupin são alguns dos nomes que assinaram os mais icónicos clássicos e ajudaram a manter até hoje uma aura de exotismo e charme do Novo Mundo em torno do design brasileiro. Peças como a acolhedora Bowl Chair de Bo Bardi, recentemente reeditada pela marca italiana Arper, a curvilínea chaise longue de baloiço Rio de Niemeyer, a mesa baixa Pétalas de Zalszupin ou a volumosa poltrona Mole, desenhada por Sérgio Rodrigues, exprimem uma linguagem distintivamente brasileira.

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Apesar do vasto historial, o design brasileiro não se resume aos grandes mestres de meados do século passado, contando com um conjunto de figuras contemporâneas, que tem vindo a surpreender o mundo nos últimos anos com as suas criações originais. Um dos herdeiros naturais deste magnífico legado é o designer Zanini de Zanine, filho de José Zanine Caldas. Tendo crescido a observar o pai trabalhar na sua oficina, De Zanine acabou por estagiar com Sérgio Rodrigues, com quem produziu a sua primeira peça de mobiliário.
Assumindo-se actualmente como uma das figuras mais entusiasmantes do design brasileiro contemporâneo, De Zanine herdou do pai o respeito e paixão pela madeira, material de eleição em muitas das suas peças.

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Esta ligação familiar foi especialmente evidente na exposição individual que a galeria nova iorquina Espasso, que representa exclusivamente design brasileiro, dedicou ao jovem designer no outono de 2013. Apresentando alguns dos clássicos mais icónicos de José Zanine Caldas lado a lado com as criações do seu filho, a mostra aprofundou não só a evolução do design brasileiro ao longo das últimas décadas, mas igualmente o contínuo respeito pelos recursos naturais locais, através da recuperação de madeiras maciças brasileiras para a construção de mobiliário, demonstrado em peças como as poltronas Espasso ou a chaise longue Balanço.

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Para além da madeira, De Zanine tem vindo a experimentar com outros materiais no seu estúdio no Rio de Janeiro, realizando uma série de peças em metal, plástico ou metacrilato, das quais de destaca a elegante poltrona Moeda, produzida com chapas descartadas pela Casa da Moeda. A forma original e experimentalista com que De Zanine aborda o design levou a que marcas internacionais como a Cappellini, Tolix ou Laufen contassem com a sua colaboração, levando mais uma vez o design brasileiro além fronteiras.

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No entanto, os irmãos Fernando e Humberto Campana são os grandes responsáveis pela atenção que o Brasil tem vindo a colher nesta área nas últimas duas décadas. Desde a sua primeira exposição individual em 1989 na galeria paulista Nucleon, que a dupla demonstrou especial apetência para trabalhar com materiais invulgares, ao apresentar ‘Desconfortável’, uma linha de cadeiras em ferro que explorava a poesia do desconfortável.

Inspirados pela cultura local, mas com uma linguagem global, os Campana conseguiram criar uma estética única, um misto de design e arte, onde a originalidade e a surpresa assumiram sempre um papel fundamental.

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Abordando temas como a globalização e sustentabilidade de forma refrescante, os designers utilizam objectos e materiais acessíveis ou reciclados para criar peças esculturais, repletas de ironia e crítica social, desafiando abertamente as convenções do design.

Numa atitude intencionalmente contraditória e enganadoramente ingénua, os irmãos cruzam mundos aparentemente distantes, produzindo luxuosas peças com referências à pobreza e à banalidade do quotidiano.

Uma das peças que melhor demonstra este espírito arrojado é a poltrona Favela, concebida com uma homenagem às barracas encontradas nas favelas brasileiras. Resultado de mais de uma semana de trabalho manual, a poltrona actualmente produzida pela Edra assume-se como um trono pós-moderno, um símbolo da criatividade das favelas, utilizado na decoração das mais elegantes casas a nível internacional.

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Outra das criações que espelha a inspiração na cultura brasileira é a poltrona ‘Multidão Mulata’. Fazendo referência à colorida mistura de etnias do país, a colorida peça representa uma multidão de pessoas através de pequenos bonecos artesanais produzidos na cidade nortenha de Esperança. O aproveitamento do artificial para representar o natural, ou a mistura destes dois universos, é igualmente uma das características dominantes no corpo de trabalho dos Campana. A poltrona Vermelha, produzida com 500 metros de corda especial, foi inspirada nas lianas que envolvem as árvores na Amazónia, enquanto a poltrona Banquete, construída manualmente em pequenas séries com animais de peluche, faz uma alusão ao mundo natural e estabelece uma ponte entre banalidade e luxo, tendo o exemplar ‘Teddy Bear Banquete’ atingido o valor de 68.500 dólares num leilão da Philips em 2012.

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Celebrados como uns dos grandes poetas do design contemporâneo em exposições como a ‘Projects 66’ (conjuntamente com Ingo Maurer) no MoMA, em 1998-99, ou a ‘Antikörper’ no Vitra Design Museum, 2009-10, Fernando e Humberto Campana deixaram uma marca inquestionável no design internacional, encorajando uma nova geração de designers brasileiros a adoptaram as suas origens como fonte de inspiração. Designers como Felipe Protti, Humberto da Mata, Pedro Franco, Bruno Faucz, Carol Gay, Rodrigo Almeida ou a dupla Ana Neute e Rafael Chvaicer são os novos rostos da criatividade deste país sul-americano, antevendo um futuro brilhante para o design brasileiro.

Originalmente publicado na Revista Essential Macau