Crónica #06: Baccarat - Crystal Clear

No decorrer do último Salone del Mobile, feira dedicada às últimas novidades e inovações do mundo do design, houve uma exposição que chamou especialmente a atenção por celebrar uma das mais antigas marcas europeias, a Baccarat. Com o sugestivo nome de ‘250 ans de Modernité’, a mostra apresentou o trabalho notável que a emblemática casa francesa tem vindo a desenvolver ao longo desse período e a adaptação aos tempos modernos das suas reconhecidas peças de cristal. Tendo decorrido na igreja San Carpoforo em Milão, na qual o ambiente austero serviu de palco perfeito para as sumptuosas peças da Baccarat brilharem, a exposição (e o local escolhido) poderia bem ter sido uma homenagem silenciosa ao seu fundador, Louis de Montmorency-Laval, bispo de Metz entre 1760 e 1801.

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Fundada em 1764 na vila de Baccarat, após o rei Luís XV ter autorizado o bispo a estabelecer uma fábrica de vidro nas margens do rio Meurthe, região de Lorraine, a marca começou a destacar-se quando o industrial Aimé-Gabriel d’Artigues tomou o leme do negócio em 1816 e o direccionou para produção de peças em cristal. Usufruindo do gosto requintado do rei Luís XVIII (e seus sucessores), bem como das famílias afluentes e monarquia internacional da época, por peças luxuosas, a Baccarat prosperou rapidamente, tendo recebido a primeira encomenda real em 1823, um serviço de cálices. Epitome da ‘Art de Vivre’ francesa, a Baccarat tornou-se uma referência incontornável no fabrico de elegantes peças decorativas, sendo o primeiro fabricante gaulês a criar intricados candelabros em cristal e a desenvolver este material em diversas tonalidades, como o famoso vermelho rubi dourado, que lhe valeu uma medalha de ouro na Exposição Nacional de Produtos Industriais de 1839.

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Tendo desde cedo implementando inovadoras políticas sociais – seguros para os cortadores de vidro em 1835, sistema de pensões a partir de 1851 e escola gratuita para todos os filhos de trabalhadores desde 1868 – a relação com os colaboradores, em especial com os artesãos que manuseiam o cristal, tem sido um factor de sucesso essencial para a Baccarat.

Contando actualmente com o suporte de 25 talentosos ‘Ouvriers de France’, os melhores artesãos franceses, a marca continua a sua longa tradição, criando objectos excepcionais, moldados pelo sopro e exaltados pelo fogo.

Para além do vasto arquivo de 65.000 moldes e 200.000 desenhos, pouco mudou ao longo dos últimos 250 anos no atelier da Baccarat. Os fornos, aquecidos a uma temperatura de 1250 graus centígrados, derretem uma mistura de materiais que dará origem ao cristal. Após este processo, o soprador, com o auxílio de um assistente, mergulha um tubo num crisol de argila na fornalha, recolhendo o cristal para ser trabalhado. Num misto de força e delicadeza, o artesão molda o cristal através de uma série de passos, utilizando o sopro e a temperatura decrescente para completar a tarefa. Seguindo para o cortador de cristal, que remove as marcas deixadas pelos fórceps e pole a peça, o gravador entra acção para criar as distintas marcas no cristal, minucioso trabalho que pode demorar várias horas. Para completar o circuito nas mãos dos experientes artesãos da marca, o dourador aplica uma mistura de pó de ouro e de um agente de ligação sobre esmalte reaquecido, técnica utilizada em garrafas de perfume e serviços heráldicos.

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Apesar da Baccarat estar indissociavelmente ligada à sua história e todo esse legado ser a inspiração para as suas criações, a marca sempre se destacou por transformar tradição em criação, através de elaboradas inovações técnicas e estilísticas. Assumindo o desenvolvimento de peças intemporais, que transmitem a beleza do cristal e do trabalho artesanal, a colaboração com designers emergentes e estabelecidos tem sido essencial para a criação de novas e arrojadas colecções.

Como não poderia deixar de ser, Philippe Starck é um dos criativos por detrás de algumas das peças mais reconhecidas da Baccarat. Para além de ter projectado a nova sede parisiense da marca em 2003, Starck é autor do 'Zénith Noir', um impressionante lustre em cristal negro, a antítese perfeita do tradicional e icónico lustre em cristal transparente. Reconhecido por modernizar formas clássicas, o designer francês também desenvolveu os candeeiros e castiçais 'Our Fire' e a colecção 'Harcourt', uma reinterpretação das peças mais antigas do arquivo Baccarat, favoritos da realeza desde 1841.

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Cruzando arte e design, Arik Lévy é outra das figuras que tem vindo a colaborar activamente com a Baccarat. Assumindo-se como um designer intuitivo, o israelita utilizou o seu traço original para desenvolver peças como as esculturais jarras 'Intangible' e os candeeiros 'Torch', uma abordagem inventiva de um design tradicional.
Já o espanhol Jaime Hayon, conhecido pela sua vitalidade criativa e por ter trazido de volta a fantasia para o mundo do design, elaborou objectos singulares, misturando cristal e porcelana de forma exuberante. Enquanto a colecção 'Zoo' apresenta uma série de delicadas e irónicas caixas com formas de animais, os candeeiros 'Candy' demonstram como a tradição Baccarat se conjuga na perfeição com linhas mais contemporâneas.

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Contando ainda com o talento de Marcel Wanders, que desenhou objectos com claras referências ao mundo natural; de Aude Lechère, autora da exclusiva linha de joalharia; de Kenzo Takada, que desenvolveu uma colecção de inspiração oriental; ou do veterano Michele de Lucchi, entre outros, a Baccarat tem vindo a rodear-se dos melhores criativos de diversas áreas para enaltecer o cristal como um material de eleição para a criação das exclusivas peças decorativas. Apesar da produção das peças mais elaboradas poder envolver mais de 60 pares de mãos para serem finalizadas, a mestria de cruzar manufactura com inovação vislumbra um brilhante futuro para a Baccarat, quem sabe por mais 250 anos.

Originalmente publicado na Essential Macau, número 20.