Crónica #05 - Uma Lufada de Ar Fresco

Enquanto todo o país fala repetidamente na 'fuga de cérebros' de Portugal, os talentos que voltam às origens e os casos de sucesso são raramente mencionados nos media. O luso-descendente Toni Grilo é um excelente exemplo desse movimento silencioso que está a redescobrir as potencialidades do país e a dirigir as empresas nacionais no melhor rumo. “Todos os telejornais deveriam ter um minuto dedicado aos casos de sucesso, é importante os portugueses verem estes exemplos e deixarem de falar mal do país”, desabafa o designer criado no Sul de França. “Sou um optimista, penso sempre que é possível fazer mais e melhor”, refere determinado com o seu sotaque francês, numa entrevista que acabaria por se tornar numa agradável conversa de três horas.

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Residindo actualmente no Porto, para estar perto das unidades de produção, Grilo abraçou neste cidade um dos seus maiores desafios, ao tornar-se director criativo da Topázio em 2013. Apesar de considerar que por norma quando uma marca contrata um designer ou director criativo já é tarde demais, ficou fascinado pela vasta história da empresa centenária, pelo interminável espólio de moldes, pelo valioso capital humano e de conhecimento. Tentando trazer a Topázio para o século XXI, mas mantendo a sua identidade, Grilo tem vindo lentamente a introduzir uma nova mentalidade na empresa fundada no Porto em 1874.

“Quando me convidaram para director criativo, ofereceram-me um gabinete envidraçado, com ar-condicionado, respondi que queria uma secretária no meio da fábrica, para estar perto dos artesãos”, afirma.

Apesar de admitir que não foi fácil as suas ideias serem aceites no início, esta proximidade tem permitido a Toni Grilo assumir uma atitude pedagógica ao nível da fábrica, fomentando a curiosidade e orgulho de artesãos com décadas de experiência a trabalhar a prata, fazendo a ponte entre direcção, produção e vertente criativa. Sendo a cara do novo rumo da Topázio, curiosamente foi com a Christofle, igualmente conhecida pela prata, que o seu nome saltou para a ribalta.

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Depois de se graduar em 2001 na École Boulle, em Paris, Toni Grilo trocou a capital francesa, por ser um meio “fechado, muito intelectual, com pouca liberdade ou ligação à indústria”, por Lisboa, para integrar a equipa de Marco Sousa Santos. No decorrer da Experimenta Design em 2005, apresentou 'Dysfunction', uma exposição que mostrava esculturais peças soldadas, produzidas com objectos do quotidiano como talheres e copos. Esta visão refrescante chamou a atenção de Brigitte Fitoussi, directora criativa da Christofle entre 2005 e 2009, que o convidou para desenvolver uma série de peças de edição limitada como a mesa 'Precious Famine' ou a colecção 'From', tudo concebido com elementos do clássico faqueiro Albi. “ Na altura não tive noção do impacto que esta colaboração teria, gosto de viver o momento, usufruir do trabalho”, confessa. Apesar do seu desprendimento, as peças para a Christofle colocaram-no no mapa de uma nova e talentosa geração de designers europeus.

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Contrariando a tendência dos designers assumirem uma identidade visual única para as diversas marcas com que colaboram, Toni Grilo apresenta uma visão mais personalizada em cada projecto, adaptando-a às necessidades do desafio, uma postura mais coincidente com a de director criativo.

“Já não me considero apenas um designer, sou um director criativo, alguém que pensa numa marca como um todo, na produção, colecção, imagem e estratégia comercial”, conclui.

Quando David Haymann decidiu lançar uma marca, o perfil abrangente de Toni Grilo adaptava-se na perfeição à construção de um novo nome no competitivo mercado de design europeu. Apesar da ideia inicial de Haymann ser de lançar um projecto com incidência na reedição de peças brasileiras, Grilo foi sugerido por amigo em comum e acabou por moldar o projecto à sua imagem. “A colaboração com o David Haymann começou com um flirt, depois acabou em casamento. Antes de começar a desenhar, convidei-o para vir ao Porto para ter uma lição de produção, entender as técnicas, visitar a rede de fabricantes”, revela.

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Apesar de assumir que são necessários entre dois a três anos para construir uma nova marca, Toni Grilo acabou por aceitar o desafio de lançar as primeiras peças em apenas seis meses, e o resultado não poderia ter sido melhor. Apresentada na Maison et Objet em 2012, a colecção expressa a sua grande paixão pela exploração dos materiais naturais e pelo design intemporal, “difícil de copiar”. O candeeiro Marie, com a sua forma de cogumelo, é o perfeito reflexo desse fascínio e a imagem de marca da francesa Haymann, sendo produzido em diferentes materiais como o mármore, carvalho maciço, alumínio polido e cortiça preta.

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Fornecendo cortiça preta para diversas peças da Haymann, a Sofalca tornou-se num parceiro natural de Toni Grilo, dando origem à recém-lançada Blackcork. “Deram-me total liberdade para este projecto, disseram-me que não percebiam de design, bastava orientá-los e eles seguiam”, afirma. Assumindo a direcção criativa da marca, Grilo chamou alguns dos mais promissores designers nacionais, como Gonçalo Campos ou Daniel Vieira, para dar uma nova vida a este material, até agora utilizado como revestimento térmico ou acústico. Conjugando design com este material ecológico, a colecção da Blackcork quebra com a imagem desgastada da cortiça, não só pela tonalidade mais escura, bem como pela opção clara de criar objectos apelativos, facilmente adaptáveis a ambientes contemporâneos.

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Afirmando que não entende o lado mais romântico do design, “de querer salvar o mundo”, Grilo é um pragmático, explora os materiais, bem como o percurso e história das marcas para se inspirar, cria mais-valias e foi exactamente isso que fez com a Riluc. Fundada há 25 anos, a empresa especializada em aço inoxidável juntou-se a Toni Grilo para desenvolver uma colecção impar, “única no mercado”. Sendo um misto de design e arte, as esculturais peças da marca de Santo Tirso levam o metal ao extremo, criando formas inovadoras e surpreendentes. Produzida manualmente com grande atenção ao detalhe, a poltrona Bibendum, uma clara referência às generosas formas da mascote Michelin, é a peça mais emblemática da Riluc e serviu de base para uma linha de produtos em aço inoxidável polido, que inclui também cadeiras, mesas e sofás.

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Invertendo a lógica do design nacional, no qual os designers “ficam satisfeitos ao fazerem apenas o protótipo”, Toni Grilo é um agente incansável na promoção das marcas com que trabalha, tendo recentemente levado peças da Riluc e Topázio à feira Design Days Dubai, através da galeria Show Me de Braga. Para além das marcas com que colabora actualmente, Toni Grilo abraçou mais um desafio como director criativo na nova marca Marm, um projecto “singular, que vai apresentar o mármore de uma forma inovadora”.

Segundo Toni Grilo, o país “está a vibrar, a viver um momento muito bom, os empresários estão finalmente a acordar e a perceber a importância de criar marcas próprias, algo que italianos fizeram nos anos cinquenta e sessenta”.

Podemos estar com algumas décadas de atraso relativamente aos nossos vizinhos europeus, mas figuras como Grilo estão definitivamente a mudar a percepção do design nacional.

Artigo originalmente publicado na Essential Lisboa No.61
Foto de Toni Grilo por Francisco de Almeida Dias