Crónica #04 - A Nova Face da Fontana Arte

Quando o grupo Nice, produtor de sistemas de automação para utilização residencial e industrial, adquiriu a totalidade do capital da Fontana Arte em 2012, o desafio de reestruturar uma das mais emblemáticas marcas italianas de iluminação não se afigurava como uma tarefa fácil. Manter o carácter desta referência fundada em 1932, introduzindo novo sangue na colecção de forma coerente e deixar de subsistir apenas das peças de arquivo e clássicos era o objectivo do grupo. O primeiro sinal de sucesso foi a abertura da nova loja em Milão em finais do ano passado. Localizada na Corso Monforte, o espaço desenhado por Fabio Calvi e Paolo Brambilla assume-se como um elo de ligação entre o passado e presente da Fontana Arte, conjugando o charme e formas suaves dos anos cinquenta com as últimas inovações tecnológicas. Gio Ponti e Pietro Chiesa, fundadores da marca, foram uma clara inspiração e o seu espírito e criações ecoam pelo espaço.

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Conhecido por ter sido uma das figuras mais marcantes do design italiano do pós-guerra, Gio Ponti destacou-se pela ecléctica veia criativa, que abrangeu áreas tão distintas quanto a arquitectura, pintura, design gráfico ou cenografia. Enquanto a Torre Pirelli continua a ser um elegante marco na paisagem milanesa e a revista Domus – fundada nos anos vinte, conjuntamente com Gianni Mazzocchi - ainda é uma publicação de referência no campo do design e arquitectura, peças como a cadeira Superleggera da Cassina ou a colecção de objectos para a Christofle demonstram a intemporalidade do legado de Ponti.

A transversalidade da sua visão, a constante procura pela leveza e frescura visual, a conjugação de funcionalidade com um sentido poético, foram a base do trabalho do criador e os elementos fundadores da Fontana Arte, que perduram até aos dias de hoje.

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De igual modo, a influência de Pietro Chiesa marcou a história da marca italiana. Descendente de uma afluente família de artistas oriunda de Ticino, cedo se especilizou no trabalho com vidro, material pelo qual sentia um enorme fascínio pela sua fluidez e versatilidade. Combinando modernidade com uma extraordinária capacidade técnica, Chiesa aproveitou o vidro para criar algumas das primeiras peças da Fontana Arte, muitas delas ainda hoje em produção.

A mesa de centro Fontana, desenhada em 1932, é um excelente exemplo do seu incessante desejo em experimentar as propriedades dos materiais, levando-os ao extremo.

Apresentando uma enorme leveza visual, Fontana é um objecto subtil, que esconde por detrás das suas linhas simples uma enorme complexidade técnica, sendo contruída com uma única placa de vidro moldado com 15 mílimetros de espessura. Responsável por mais de um milhar de prótotipos, Pietro Chiesa é igualmente o autor de outros clássicos da Fontana Arte como o elegante candeeiro Luminator ou a escultural jarra de vidro Cartoccio. 

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Tendo a fundação da Fontana Arte sido baseada no trabalho artesanal, em meados dos anos cinquenta, o mestre vidreiro e decorador francês Max Ingrand, conhecido pelos seus vitrais de igrejas, é convidado para assumir a direcção criativa da marca, levando-a para a era industrial. Aproveitando a expansão económica do pós-guerra e o crescente interessante do público em produtos para interiores, a Fontana Arte abandona as edições limitadas e assume a produção em massa, sem no entanto perder a atenção ao detalhe. Celebrando 60 anos desde a sua criação em 2014, o candeeiro Fontana é a peça (apresentada agora numa edição de aniversário em preto) mais conhecida de Max Ingrand e a materialização das ideias introduzidas pelo francês na Fontana Arte, combinando métodos de fabrico industriais com um delicado corpo em vidro soprado branco. 

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Em 1979, a marca italiana iniciou uma nova fase com a nomeação de Gae Aulenti como directora artística. Reputada arquitecta e prolífica designer – assinou projectos como a renovação dos interiores do Museu d'Orsay ou do Palazzo Grassi e clássicos como o candeeiro Pipistrello – Aulenti introduziu uma dinâmica renovação cultural na Fontana Arte, reestruturando a colecção e assumindo a comunicação como um elemento estratégico na empresa. Contando com o auxílio de Piero Castiglioni no desenvolvimento de produto, Pierluigi Cerri na vertente gráfica, Daniella Puppa e Franco Raggi no design de eventos e exposições, Gae Aulenti cimentou a posição da Fontana Arte enquanto uma referência no campo da iluminação, feito reconhecido com a atribuição do Compasso d'Oro em 1998. Tendo falecido em 2012, após ter recebido um prémio da Trienal de Milão pela sua carreira, Gae Aulenti deixou uma importante herança cultural, lançando as fundações para um auspicioso futuro.

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Assumindo em 2012 a grande responsabilidade de liderar a vertente criativa da Fontana Arte, o designer Giorgio Biscaro tornou-se o novo director artístico no octagésimo aniversário da marca. Invertendo a lógica de colaboração com arquitectos e designers de renome, Biscaro chamou uma série de talentos emergentes para apresentar a nova face da Fontana Arte.

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Enquanto a dupla GamFratesi criou a colecção Chesire, uma referência ao gato popularizado na história 'Alice no País das Maravilhas', Ferréol Babin apresentou o inovador candeeiro de parede Lunaire, inspirado no efeito luminoso dos eclipses. Os artistas holandeses Ralph Nauta e Lonneke Gordijn, fundadores do Studio Drift, desenvolveram o escultural candeeiro suspenso Albedo com base numa instalação apresentada no Dubai em 2012; Andreas Engesvik desenhou o Blom, uma autêntica flor luminosa; o estúdio Form Us With Love criou o original Yupik, uma peça multifuncional fabricada com espuma de polipropileno; e o Studio Klass assinou o luxuoso Odeon, um 'wall washer' totalmente revestido a couro.

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Com um design intemporal, as peças mais recentes da Fontana Arte trouxeram uma necessária frescura visual à colecção, respeitando a tradição da marca e a filosofia de Gio Ponti:

“Estou interessado no esplendor do passado, mas estou muito mais interessado no esplendor do futuro”.

Artigo publicado na Essential Macau No.19