Alcino Silversmith

Quando entramos na oficina da Manuel Alcino & Filhos não podemos evitar pensar que está parada no tempo, e ainda bem que assim é. Num mundo dominado pela produção em série, a marca portuense encontrou no trabalho manual da prata e na conservação das técnicas tradicionais a forma de se destacar num mercado competitivo. “Apostámos sempre na manufactura, em detrimento da industrialização, através da formação permanente dos artesãos e pela passagem de conhecimento, feita de geração em geração. Tivemos ao longo de 110 anos duas gerações de famílias a trabalhar na nossa oficina. Também admitimos periodicamente aprendizes para que estes possam ser transmissores desta arte”, explica Manuel Alcino, actual proprietário e trineto homónimo do fundador da marca.Num espaço repleto de bancadas de trabalho em madeira e paredes escurecidas pelo tempo, localizado numa discreta rua empedrada não muito longe do Bolhão, as ferramentas, moldes e panos de polir encontram-se espalhados um pouco por todo o lado, testemunho da dedicação e atenção ao detalhe que os artesãos aplicam na produção das magníficas peças da Manuel Alcino & Filhos. Fundada em 1902, a marca tem vindo desde a sua criação a elevar a ourivesaria a forma de arte através da personalização, exclusividade e diversidade ao nível criativo, manufacturando desde peças clássicas a objectos modernos, fruto do “convívio com grandes mestres da arquitectura à escultura, que nos proporcionou uma aprendizagem do acto de criar, bem como da inspiração na vida animal e vegetal, utilizando na sua concepção materiais como marfim, ovo de avestruz, pedras, coral ou conchas marinhas”. Foi esta mesma abertura a outras vertentes da arte que os levou a desafiar diversas personalidades como o arquitecto Pádua Ramos, o escultor Zulmiro de Carvalho ou artista plástico Charters de Almeida, entre outros, a criar peças contemporâneas em prata para a exposição ‘Um ourives e 7 artistas’ em 1993, exibida mais tarde no Museu Nacional de Arte Antiga. Para além disto, a marca portuense colaborou em 2010 com o arquitecto Siza Vieira para criar um objecto em prata e biscuit para o Papa Bento XVI, oferta dos representantes da cultura nacional, aquando da sua visita a Portugal, bem como esteve sempre envolvida no restauro e concepção de peças de arte sacra, projectos por encomenda (como um tijolo em prata desenhado por Pedro Cabrita Reis, uma impressionante fonte de dois metros de altura e 150 kg de prata que pode ser admirada na Ourivesaria da Moda, em Lisboa, e diversos troféus para clubes de futebol), serviços de chá, faqueiros e peças decorativas, destacando-se a magnífica série de animais com delicadas figuras de cavalos, galgos, rinocerontes, ursos ou elefantes, resultado da conjugação da prata com os mais variados materiais. Apesar do seu trabalho ser amplamente conhecido em Portugal, a qualidade da marca desde há muito que atravessou fronteiras, cativando muitas casas reais europeias, das quais se destaca a dinamarquesa que devido “a uma abordagem do nosso embaixador em Copenhaga, levou a que o curador das pratas da Rainha visitasse as nossas instalações. Este, encantado com o que viu, queria levar toda a nossa oficina para expor na capital dinamarquesa, tendo sido adquiridas algumas peças clássicas e contemporâneas para a família real”, originando igualmente uma exposição no Palácio Real de Amalienborg em 2002, por convite da própria Margarida II. Para além da preferência da nobreza do velho continente, a Manuel Alcino & Filhos tem vindo a explorar novos mercados nos países emergentes e a fazer uma nova aposta a nível nacional através da abertura de uma loja bem no centro do Porto, no átrio do Hotel Intercontinental do Palácio das Cardosas, que se afirma como “o culminar da aproximação ao cliente final. Ao longo destes anos, trabalhámos primeiro para os grossistas e armazenistas, depois para as ourivesarias e, neste momento, para o cliente final. Assim, também conseguimos com a loja ter uma exposição permanente das peças e ter um contacto directo com o público”, confessa Manuel Alcino com orgulho. Apesar do momento económico não ser o mais animador, o actual proprietário da marca portuense refere que “não gostamos do termo crise. Podemos falar de uma mudança de hábitos de consumo das sociedades. Procuramos fazer face às quebras de vendas com a busca de novos mercados e, acima de tudo, criar artigos que as pessoas procurem. Por muito trabalho que nos dê, nunca dizemos que não ao desafio de um novo projecto. O que nos dá prazer é desenvolver e executar novos projectos. Continuamos a trabalhar com escolas e universidades, através de parcerias, a passar conhecimento e a receber novos formandos, ajudando-os a concretizarem as suas ideias.” Representando a quinta geração da família, Manuel Alcino tem sido o fiel dinamizador desta arte em vias de extinção e um incansável defensor do melhor que se faz em Portugal, tendo transformado a marca numa inquestionável referência internacional nesta área. Apesar do número de artesãos ser bastante menor do que o de outrora, não podemos deixar de sentir que o amor, dedicação e mestria no manusear da prata é algo que se respira na envelhecida oficina, projectando um brilhante futuro para a Manuel Alcino & Filhos, numa perfeita “aliança entre tradição e modernidade”.