Ach. Brito

Recentemente visitei a fábrica da Ach. Brito para fazer um artigo para a Essential Lisboa. Foi uma grande experiência ver de perto como estes clássicos sabonetes portugueses são produzidos e confirmar que a herança da marca continua a ser o seu principal trunfo: Soap of Substance Fundada em 1918, a Ach. Brito continua a conquistar novos mercados com a linha de luxo Claus Porto, que conjuga os melhores sabonetes com embalagens de inspiração vintage.

Quando a porta do escritório se abriu e descemos as escadas até à fabrica, com o seu piso escorregadio, o intenso e agradável aroma que circulava no ar seria difícil de ignorar até para os mais distraídos. Uma mescla de diversas notas, florais a cítricas, despertou o nosso olfacto de forma inesperada, enquanto o som das velhas máquinas em laboração demonstram que a tradição de mais de um século se mantém e que a Ach. Brito continua a ser a grande referência da saboaria nacional, sendo apreciada pela qualidade dos sabonetes e originalidade das embalagens. Numa zona industrial, entre o Porto e Vila do Conde, a discreta fábrica da Ach. Brito é testemunho do percurso recente da marca fundada em 1918.

“Há uns atrás a nossa fábrica estava instalada em Varziela, na China Town aqui do norte, havia lixo nas ruas e não era o local mais agradável para receber pessoas, mas abrimos sempre as portas a todos, tal como o fazemos actualmente,"

recorda José Fernandes, administrador geral da Ach. Brito. Esta mesma autenticidade e a noção de que “se pode tirar partido das fraquezas” são o segredo do sucesso da marca portuense, mas quando há uma década a quarta geração da família, os irmãos Aquiles e Sónia Brito, conjuntamente com José Fernandes decidiram alterar o rumo da empresa, o cenário não era tão risonho. “Quando vim para a Ach. Brito tínhamos apenas seis clientes, o nosso ainda parceiro nos Estados Unidos, a Lafco, outro no Reino Unido, um espanhol, no ramo da hotelaria, duas pequenas lojas em Portugal e um grande distribuidor para as grandes superfícies nacionais, que representava 85% da nossa facturação na altura, que caso se ‘constipasse’, nós morríamos”, constata o administrador. A vulnerabilidade da empresa levou a que contornassem esta dependência e caminhassem no sentido de um novo mercado, o de luxo.

“Quando iniciámos esta nova fase, diziam que éramos loucos, que a solução estava na produção em grande escala, que a nostalgia era o caminho errado, no entanto traçámos o nosso destino, remámos contra a globalização, apostámos nos sabonetes sólidos e na qualidade, acreditámos que era possível fazer da forma antiga, acrescentámos valor aos nossos produtos, restituímos a dignidade que sempre tiveram.”

Concentrando mais de um século de história da perfumaria nacional, as raízes da marca remontam a 1887, ano em que dois alemães radicados no Porto abriram a primeira fábrica de sabonetes em Portugal. Sob o nome de Claus & Schweder, e numa época em que estes produtos estavam reservados às classes mais abastadas, o empreendedorismo dos fundadores levou a que ganhasse um enorme prestígio dentro e fora de portas, onde alcançou diversos prémios em exposições e feiras, através das suas embalagens de inspiração romântica e produtos de qualidade, verificada pelos olhos do próprio rei D. Manuel II, que visitou a fábrica em 1908. O eclodir da Primeira Grande Guerra e o envolvimento da Alemanha, levou a que Ferdinand Claus e Georges Schweder se vissem obrigados a escapar do país, originando o encerramento da fábrica em 1914. Este acaso da história levou a que Achilles de Brito, antigo gerente da fábrica, e o seu irmão Affonso fundassem a Ach. Brito & Cª Lda, a qual viria a adquirir uns anos mais tarde todo o património, espólio gráfico e máquinas da empresa original. Tendo por base a filosofia da Claus & Schweder, a Ach. Brito trilhou um caminho próprio, expandindo a linha de produtos, conquistando definitivamente o público nacional, que culminou na participação na I Exposição Colonial Portuguesa em 1934, bem como assumindo o controlo de todo processo produtivo ao criar uma litografia na fábrica em 1953. A visão integrada do negócio é uma característica que se mantém no código genético da Ach. Brito, que nos dias de hoje continua a dominar todos os aspectos da operação. A aquisição do principal concorrente em finais de 2008, a Confiança - fundada em 1894, e que actualmente produz as colónias, cremes de barbear, barras de glicerina e talco – permitiu à Ach. Brito continuar a competir em diversos segmentos, desde o básico sabão azul e branco, ainda concebido em fôrmas tradicionais, a continuação de clássicos de grande produção como a linha Lavanda, lançada nos anos vinte, até à luxuosa colecção Claus Porto, a grande aposta da marca portuense. Com fragâncias francesas concebidas em exclusivo para a Ach. Brito, os sabonetes da Claus Porto destacam-se pela magnífica textura, aromas irresistíveis e atenção ao detalhe, especialmente as linhas Clássico e Fantasia. Sendo fabricadas através de um sistema semi-artesanal, no qual quatro máquinas de meados do século passado desempenham um laborioso processo de mistura, laminagem, extrusão, corte e cunhagem, o olhar atento de experientes funcionários, que  examinam todos os pormenores, certifica a qualidade do produto final. Com base 100% vegetal, enriquecidos com manteiga de manga e pistáchio, e possuindo elegantes fragâncias naturais de amêndoa, tília ou vetiver, os sabonetes Clássico e Fantasia possuem rótulos centenários seleccionados dos antigos arquivos da marca – existem mais de oito livros com centenas de embalagens vintage – sendo cuidadosamente embrulhados à mão e fechados com lacre. Representando na perfeição toda a história e qualidade da Ach. Brito, a colecção Claus Porto personifica o desejo de apostar cada vez mais numa vertente mais exclusiva, tal como José Fernandes refere:

“gosto mais de vender uma palete de Claus Porto para os Emiratos Árabes Unidos do que um contentor de sabonetes mais baratos para Angola, não tenho gozo nenhum em produzir para fazer escala”.

Apesar de quando iniciaram este novo ciclo “terem dado passos sem saberem se eram os correctos”, a estratégia não se podia ter revelado melhor. Presente em mais de 50 países, a Ach. Brito possui uma acentuada presença nos Estados Unidos (através da Lafco) e nos principais mercados internacionais, estando representada nas melhores lojas como a Lane Crawford (Hong Kong), Bergdorf Goodman (Nova Iorque), Conran Shop (Paris), Liberty (Londres), Isolée (Madrid), A Vida Portuguesa (Lisboa e Porto, onde se associaram a Catarina Portas para a abertura da loja) ou “o próprio Christian Lacroix, que pediu para os nossos produtos estarem presentes na recente reabertura da sua loja em Paris”, revela um sorridente José Fernandes, convicto de que o caminho seguido foi o indicado e de que Ach. Brito continuará a mostrar o melhor de Portugal pelos quatro cantos do mundo.