Ivan Carvalho

Interview with Ivan Carvalho, Monocle correspondent in Milan. This post is only available in portuguese.Criado na Califórnia, e com uma costela portuguesa, Ivan Carvalho é o correspondente da Monocle em Milão, onde vide desde há alguns anos. Tendo iniciado a sua carreira editorial na revista Wired, Ivan Carvalho colaborou com publicações de referência como o International Herald Tribune ou a Domus. Cobrindo os mais diversos temas para a Monocle em Itália, Suíça e Portugal, Ivan falou com O Editorial: O Editorial: Como iniciaste a colaboração com a Monocle? Ivan Carvalho: Já colaborava com a Winkreative, a consultadoria fundada por Tyler Brûlé após ter deixado a Wallpaper*. Era os olhos e ouvidos deles em Milão, deixando-os ocorrentes sobre as tendências na cidade. Quando o Tyler decidiu começar uma nova revista, uma das pessoas da sua equipa contactou-me para fazer um artigo sobre Génova e tudo começou a partir daí. Trabalho com a Monocle desde o primeiro número, lançado no início de 2007. Acabámos de celebrar cinco anos como revista, o que é verdadeiramente notável no mundo actual, onde as publicações impressas atravessam dificuldades e muitos grupos de média assumem uma atitude derrotista. Muitos queixam-se que a internet está a arruinar os seus negócios, no entanto a Monocle demonstrou que uma publicação de qualidade pode sobreviver e até crescer num mercado obcecado pelo iPad. Agora com a nossa estação de rádio Monocle 24, a companhia está a demonstrar novamente que há muito espaço para os média tradicionais, se apresentarem um produto de qualidade e oferecerem algo verdadeiramente único.

Quais são os ingredientes que fazem da Monocle uma revista tão interessante? A variedade de temas abordados faz de nós, na minha opinião, uma leitura única. Vamos de A a Z, cobrindo desde grandes histórias com importância geopolítica (como a vaga de investimento chinês em África e os seus efeitos) a temas mais leves e coloridos (como cobrir os Jogos da Lusofonia em Lisboa). Em Itália, tenho tido a sorte de cobrir uma vasta variedade de temas, sendo que muitos deles não são abordados pela principal imprensa internacional presente em Itália. Muitas vezes somos a primeira publicação internacional (ou mesmo local) a falar sobre uma certa pessoa, produto ou negócio. Outro importante elemento é que a Monocle investe bastante em fotografia. Quando temos tempo, fotografamos com rolo, visto retratos tirados com máquinas digitais poderem apresentar um tom de pele um pouco estranho. Nós também não cobrimos celebridades. É bastante frequente as revistas confiarem numa grande estrela de cinema, num chef  celebridade ou futebolista para atrair a atenção, mas só por alguém ser famoso não quer dizer que tenha bom gosto ou nariz para tendências. Muitas revistas gostam de lançar nomes (esta celebridade compra esta marca, portanto também o deves fazer) e frequentemente vomitam press releases que lhes são dados.

"Preferimos escavar mais fundo e tentar descobrir as empresas que fazem as coisas bem, muitas vezes ainda de forma manual ou com técnicas tradicionais, mas que não são famosas."

Muitas grandes marcas actualmente são apenas máquinas de marketing e uma etiqueta. Por detrás existe outra firma que foi contratada para fazer o trabalho e depois essa, possivelmente, ainda vai subcontratar uma outra. Temos uma audiência variada: pessoas criativas (arquitectos, designers industriais, ilustradores, etc), banqueiros, empresários, hoteleiros, proprietários de restaurantes, etc, sendo que muitos deles viajam e procuram coisas novas, novas tendências e gostam do facto da nossa revista revelar uma série de histórias interessantes. Não se consegue encontrar tudo online. Ainda é necessário investir nos meios sociais tradicionais, conhecer pessoas cara a cara para uma bebida ou uma conversa. Esta é a forma mais produtiva de fazer negócios e encontrar histórias interessantes.

Qual a reportagem que mais gostaste de fazer? É difícil de responder. Tenho tido a sorte de viajar com a Monocle e ver muitos bastidores, fábricas como a dos cafés Illy em Trieste, dos chapéus Borsalino e a da Horgenglarus, um fabricante de mobiliário suíço pouco conhecido, que produz cadeiras clássicas que duram 100 anos sem qualquer manutenção. A mais memorável talvez tenha sido em Nápoles no Verão passado, quando eu e um fotógrafo alemão passámos três dias com a Guardia di Finanza em busca de traficantes de droga e a fazer rusgas contra a Camorra. Estes agentes arriscam as suas vidas diariamente. Quando os fomos visitar, alguns deles tinham sido atacados com armas de fogo no decorrer de uma patrulha na auto-estrada. Outros conduzem os carros de magistrados, que receberam ameaças de morte da máfia, para trás e para a frente, entre o tribunal e as suas casas. Claro que nem tudo é perigoso. Estivemos num barco patrulha, a navegar a 40 nós pela água e com vistas de Capri em frente e o sol mediterrânico por cima. Foi memorável.

Quais os teus locais favoritos em Lisboa? Os terraços e esplanadas (por exemplo, a Esplanada da Graça) onde podes tomar uma bebida e admirar a cidade num dia quente. Para um pequeno-almoço ao fim-de-semana com um bom café, bolos e jornais, gosto da Praça das Flores. Descomprimir com uma bebida no quiosque tradicional do Príncipe Real, que a Catarina Portas ajudou a montar. Uma paragem na sua loja A Vida Portuguesa é também obrigatório, como igualmente uma visita à Claudio Corallo, à loja de design Pátria Interiores e ao restaurante Taberna Ideal.

O que achas que se poderia fazer em Lisboa para se tornar uma cidade mais atractiva? Necessita de repovoar o coração da baixa (o centro tem vindo a perder cerca de 10.000 pessoas anualmente). Precisa de oferecer casas e escritórios acessíveis para jovens casais e pessoas criativas, para dar mais vida aos bairros do centro da cidade.

"Deveria haver mais comércio de rua e menos ênfase nos grandes centros comerciais. A cidade tem um clima tão bom que as pessoas não deviam ser forçadas a ir para grandes caixas de ar condicionado."

Os pequenos espaços verdes existentes deveriam ser melhor cuidados. Menos lixo nas ruas, especialmente nos parques. Também  deveria trazer-se de volta um senso de identidade para a cidade. Penso que os táxis deviam voltar a ser pretos e verdes. Sinceramente, acho que ficavam com melhor aspecto e que se destacavam, especialmente sendo muitos deles Mercedes. É uma das muitas formas das cidades se promoverem para o mundo: Nova Iorque tem o táxi amarelo, Londres tem os táxis pretos. Se Lisboa se quiser apresentar como uma capital elegante, penso que deve desfazer-se dos aborrecidos táxis bege e voltar ao que funcionava anteriormente.

Qual a tua cidade favorita? Tenho que confessar que existem elementos de diversas cidades que eu gostaria de combinar e fazer um local perfeito. Estive recentemente no Porto e vim impressionado com o que vi. As pessoas são empreendedoras, trabalhadoras, dispostas a tentar novas ideias, e ao contrário de Lisboa, como um portuense me estava a dizer, eles normalmente têm que começar por eles próprios, sem ajuda do estado ou uma mão das autoridades locais, como em Lisboa. Tentas e vês se o teu novo restaurante ou loja tem mercado com os consumidores. Se falhares, tentas de novo. Eu lembro-me do gabinete de turismo de Portugal estar a tentar promover o país como Europe's West Coast. Bem, eu sou da Califórnia e tendo crescido perto de São Francisco e do Silicon Valley posso afirmar que Portugal pode ter uma paisagem similar (ambas as regiões têm produção vitivinícola) à Califórnia, mas Lisboa não tem a mesma cultura empresarial dinâmica que encontras, por exemplo, em São Francisco.

"Dito isto, o clima é fantástico em Lisboa, tem uma luz magnífica, a cidade tem uma sensação mediterrânica, mesmo estando virada para o Atlântico. Lisboa tem uma grande combinação de cultura de cafés, com excelente pastelaria e uma dieta saudável com comida vinda do mar. Muitos dos meus amigos italianos elogiam Lisboa pela sua comida depois de terem feito uma visita."

Penso que a minha cidade ideal tem de ter um corpo de água nas proximidades. Zurique tem um lago como uma grande tradição de banhos, as pessoas vão nadar à hora de almoço e água está extremamente limpa. Claro que as cidades suíças são por natureza muito eficientes, pontuais e isso reflecte-se na população. Eles podiam ser um pouco mais descontraídos. E também, não posso descrever a sua comida como terrivelmente apetitosa. Vivendo em Itália, sou mimado com a escolha de diversas cozinhas regionais, queijos, vinhos e doces.