De La Espada

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Decerto que para os puristas (de vistas curtas) do design nacional a De La Espada não pode ser considerada uma marca portuguesa, no entanto é uma das referências neste campo que mais me orgulha enquanto português. Fundada em 1993 por Luís Oliveira e Fatima De La Espada, a marca produz toda a sua colecção em Portugal (numa fábrica própria no norte do país) e conta com alguns dos designers mais conceituados a nível internacional, tais como os britânicos Matthew Hilton e Ilse Crawford, os turcos Autoban ou os japoneses Leif.designpark. Assumindo a madeira maciça como o material de eleição, a colecção da De La Espada destaca-se pelo qualidade dos acabamentos, design orgânico e aposta nos métodos tradicionais. Tendo sido uma das matérias que mais gosto me deu em escrever para a Essential Lisboa, deixo aqui o artigo de 2010 (EL Nº38), que não podia estar mais actual:

From The Silver Coast To The World
Fundada no início dos anos noventa por um português e uma espanhola, a De La Espada é actualmente um dos líderes mundiais no campo do design de mobiliário.

Apesar de Portugal possuir uma vasta tradição no fabrico de mobiliário, nenhuma marca aproveitou esse potencial desperdiçado a um nível tão elevado como a portuguesa De La Espada. Ainda pouco conhecida a nível nacional, a De La Espada demonstra não só que a capacidade produtiva portuguesa pode ser a origem de um projecto de dimensão internacional, mas igualmente que a maioria dos fabricantes tem orientado as suas estratégias de forma incorrecta. “A maioria dos fabricantes concentraram-se em fornecer outras empresas ou em conceber produtos de baixo custo. Nós temos de nos afastar disso. Não podemos sair das nossas dificuldades com o actual modelo de negócios. Temos de ter coragem para inovar, o mercado está repleto de pequenos nichos, existe espaço para todos se trabalharmos bem”, refere Luís de Oliveira, co-fundador e director da De La Espada.

“As marcas têm de se focar em atrair designers talentosos. Não vou ser muito popular, mas somos um pequeno país com pouco mais de dez milhões de habitantes e as nossas empresas têm de procurar pelo melhor talento no palco internacional. Nós temos uma tradição modesta no design industrial e tal situação não se altera da noite para o dia. Os designers também abrem mercados que inicialmente podem ser difíceis de alcançar. A indústria italiana procura talento fora das suas fronteiras. Todas as marcas acima de uma certa dimensão devem cultivar um certo número de relações com designers e colocar uma meta anual para criar uma série de produtos verdadeiramente inovadores. Temos de deixar de copiar produtos e soltar uma verdadeira revolução criativa, que eventualmente beneficiará os designers portugueses”, conclui o director da marca.

Fundada em 1993 por Luís de Oliveira e Fatima De La Espada, marido e mulher, a marca acabou por nascer de forma acidental. “Um familiar da minha mulher tinha começado um pequeno negócio de construção civil e demonstrou particular interesse em obter trabalho de carpintaria de alta qualidade para uma casa que estava a construir, tendo acabado por contratar três carpinteiros. A minha mulher juntou-se ao negócio depois da universidade e eu segui-a. O mercado imobiliário tornou-se bastante difícil - era o início dos anos noventa em Espanha - e nós alterámos a actividade do negócio para a produção de mobiliário por medida. Se nunca tivesse seguido a minha mulher para Madrid a seguir à Universidade ou se o negócio de construção tivesse tido sucesso, isto nunca teria acontecido. Os acidentes são sempre uma oportunidade dissimulada”, revela Luís de Oliveira.
Tendo a fábrica localizada na Costa de Prata, a marca destaca-se, entre muitos outros aspectos, por privilegiar a qualidade de produção e a vertente funcional dos seus produtos, bem como por possuir uma vincada tradição europeia.

“Quando se opera no mercado de luxo, tem de ser um líder, ser destemido, sem criar coisas que são simplesmente disparatadas. Tem de se ter os pés assentes no chão e manter os princípios básicos do funcionalismo no que diz respeito aos produtos. Temos de nos assegurar que apenas lançamos algo com que se está completamente satisfeito, que foi totalmente desenvolvido e não ser apenas um protótipo inacabado. É necessário mostrar o empenho com o produto e o profissionalismo”, refere Luís de Oliveira.

Salientando a importância da fábrica estar localizada em Portugal, o co-fundador da marca explica que “é muito importante para nós que não sejamos um produtor virtual, uma empresa que subcontrata toda a produção. Na indústria dos produtos de luxo é necessário levar a cabo um elevado um nível de controlo, sendo que a herança europeia é muito importante em diversos mercados”.
Para além da impressionante atenção ao detalhe e da inquestionável qualidade dos produtos, a ecléctica escolha de designers é um dos pontos fortes desta marca portuguesa. “Nós temos uma abordagem singular relativamente ao trabalho com os designers, onde não os procuramos para apenas nos desenharem uma peça, mas sim para trabalharmos conjuntamente no desenvolvimento de uma marca. Estas ‘micro-marcas’ estão repletas de carácter e autenticidade, o designer está em total controlo da vertente estética, preocupando-se não só com os produtos, mas igualmente com a direcção de arte de toda a marca. Nós fornecemos o apoio que eles necessitam, tendo por objectivo trabalhar por um período inicial de três anos na maioria dos casos, para desenvolver um grupo coerente de produtos”. Para além de contarem com novos talentos como o estúdio japonês Leif.designpark – conhecido por conjugar de forma brilhante a tradição japonesa com o design moderno - ou a emergente dupla turca Autoban - que tem vindo a acumular prémios desde a sua formação em 2003 e que se destaca pelo seu estilo único inspirado na Escandinávia e na diversidade cultural de Istambul - a De La Espada apresenta no seu portfólio de ‘micro-marcas’ nomes de peso como Matthew Hilton – um dos designers britânicos mais conceituados e que acumula no seu currículo criações para marcas como a Driade, Sawaya & Moroni, SCP, Andreu World ou Authentics – ou Ilse Crawford – responsável por diversos projectos de interiores emblemáticos (o clube Soho House em Nova Iorque e o restaurante Grand Hotel em Estocolmo são apenas dois exemplos) e pelo seu estúdio ser um dos mais abrangentes do ramo, cruzando branding, arquitectura de interiores e design industrial.

Tendo aberto o primeiro showroom em Madrid em 1993 e três anos mais tarde inaugurado um espaço em Londres, a De La Espada conta actualmente com uma impressionante rede de distribuidores nos principais mercados internacionais. “Uma observação rápida às estatísticas do nosso website reflecte com bastante precisão a nossa performance de vendas: Estados Unidos (40%), Reino Unido, Canadá, Alemanha e nas principais cidades na Ásia e Austrália”, revela Luís de Oliveira. Tal como muitas outras marcas do mercado de luxo, a crise internacional prejudicou o percurso da De La Espada, sem no entanto abalar a confiança da marca. “Afectou simultaneamente as nossas vendas, o nosso poder de fazer investimentos, e a própria confiança dos nossos parceiros em investir. No entanto, estamos felizes por termos continuado a desenvolver produtos em 2009, mais de vinte, e criado relações com novos designers, os quais lançaremos em 2010 e 2011. No entanto também observámos crescimento, de facto um forte crescimento nos primeiros seis meses deste ano, a primeira vez que aconteceu desde 2008”.
Optimista relativamente ao futuro da De La Espada, Luís de Oliveira revela que para além de apoiar o Oporto Show não existem planos para o aumento da visibilidade da marca em Portugal, devido ao facto de ser “um mercado relativamente pequeno. Como os nossos recursos são limitados, temos que nos focar em mercados que podem crescer”, acrescentando que “o primeiro passo para dar a conhecer a marca à comunidade do design e ao público em geral é que Portugal tem uma empresa que exporta para todo o mundo e se afirma como um líder na sua área. É este género de história que todos nós necessitamos de ouvir agora”.