A Idade da Inocência

This post is only available in portuguese.Desde muito cedo que as bicicletas estiveram presentes na minha vida. A primeira, uma robusta BMX vermelha com laivos de amarelo e azul, foi objecto de brincadeira durante anos a fio, serpenteando comigo terrenos descampados, caminhos florestais e as pequenas ruas da aldeia onde passava férias com os meus avós maternos. Mais tarde, acompanhando o desejo pessoal de explorar novos terrenos, o meu avô delegou-me a sua segunda bicicleta, um belo exemplar de estrada com quadro em aço pintado de roxo e fita em tecido creme no guiador. Apesar de um pouco grande para mim, a veloz bicicleta acompanhou-me em diversos passeios pelas acidentadas estradas circundantes. Longas e deleitosas descidas, davam origem a subsequentes subidas e ao prazer de as ultrapassar com esforço. Outra das agradáveis memórias que associo à bicicleta roxa são as longas tiradas que fazia com o meu avô até às praias de São Martinho do Porto ou Foz do Arelho.

A quente brisa de Verão acompanhava-nos pacatamente, dando-nos tempo para dois dedos de conversa e apreciar a suave cadência das pedaladas.

Depois de mais de uma década sem pedalar, recordei-me do prazer que tal me proporcionava e decidi adoptar a bicicleta como meio de transporte citadino. Após um primeiro dia mais traumático, no qual a Avenida da Liberdade aparentava não ter fim, a segunda jornada fluiu normalmente, sendo o início do meu abandono do transporte automóvel. Desde então, há quatro anos atrás, percorri a cidade de lés a lés através da força do pedal, tendo conhecido Lisboa como nunca. Preservando uma infinita infantilidade, a bicicleta proporciona uma liberdade indescritível, permitindo observar o ambiente circundante de forma límpida e absorvente. É esse mesmo gozo que se retira do pedalar que está a levar cada vez mais pessoas a adoptar a bicicleta como meio de transporte em Lisboa. Apesar de estarmos muito longe de outros exemplos europeus, onde milhares de pessoas se fazem transportar no veículo de duas rodas, a força de vontade dos que já o fazem é admirável.

Entre iniciativas e a vontade pessoal de cada um em alterar o cenário incomportável em que a cidade se encontra, a refrescante candura com que tudo é encarado encontra-se espelhado nos rostos sorridentes dos lisboetas que serpenteiam as artérias da cidade.

Enfrentando um vazio legal gritante e a agressividade de muitos automobilistas, os actuais ciclistas lisboetas são os percursores do que será a Lisboa de amanhã, os mentores de uma consciência mais ecológica, saudável e humanista, que entretanto vão vivendo a idade da inocência…

Ilustração: Luís Favas para Jornal Pedal nº1